Poesia na rede
Eu acordo e já não me reconheço na face embaçada do espelho. Eu, uma parafernalha de números que se repetem dia após dia. Números que dão conta de quem eu sou, de minha Fome, do Vazio que me devora. Eu, repetidas vezes ninguém, sufocado entre telas que nada me dizem sobre mim. Eu, uma extensão de um Nada que se afasta cada vez mais da terra da qual roubo meu nome: homem. Eu, homem, só me reconheço no Caos que me presenteia o Verbo. Eu, translúcida sombra de mim, atravesso os dias como uma lâmina fugaz, mas não me sei a não ser na palavra que alguém me empresta. Eu, avesso de uma possibilidade, me reduzo a uma ânsia por velocidade para não chegar a lugar nenhum. Eu, mastigado pelo cotidiano herético dos Anjos, finalmente descubro que pesa sobre mim a herança de meu tempo, a única verdade que aqueles com quem divido a vida parecem entender: a Máquina.
É a ela que canto. É ela que execro. É ela que mato e é ela quem me renasce. É ela que me anula e porque me anula me faz mais homem. Mais homem, porque o homem de meus dias desconhece a úmida verdade sob o concreto escaldante; meus dias de concreto e silício rolam para o precipício da insanidade. O homem de meus dias não é outro senão o Não-Homem, a Besta que devora sua cauda. O homem de meus dias é a Máquina.
Eu canto, pois, a Máquina: o que a precede, o que ela é, o que a mata e o que a supera. A proto-Máquina, a Máquina, a anti-Máquina e a hiper-Máquina. Não porque a ame. É que cantando-a a anulo. E anulando-a anulo o que há de Máquina em mim, no homem eu sou, no Não-Homem que reconheço na face embaçada daquele espelho. O espelho que é meu tempo. Anulando-me, alimento a Máquina que há em mim e por fim não existo.
Só assim, finalmente, serei livre.