Irajá Menezes 12 anos
Irajá Menezes, Newton Carneiro & a Banda Q Animou o Baile da Ilha Fiscal foi o nome que demos Newton e eu, ao projeto de música e performance cênica que iríamos desenvolver de 1989 até 1994.
1989 foi o ano em que derrubaram os tijolos do Muro de Berlim. Foi o ano em que a Proclamação da República fez 100 anos.
1989 foi também o ano em que os brasileiros votaram em Fernando Collor de Mello, o primeiro presidente democraticamente eleito depois de quase três décadas.
O nome estapafúrdio quando nos perguntavam por que, dizíamos: é o mais comprido que encontramos para não dizer nada. Hoje parece combinar muito bem com a época. Mais ou menos como se lembrar do último baile do Império ajudasse a descrever o fim de era que era a década de 80 do século XX.
Foi de 91 a 93, período em que mais produzimos, que compusemos a trilha para o documentário "Cláudio Tozzi, encontro com o artista", musicamos as peças "Poesia em Pessoa", dirigida por Lorival Pariz, "O Califa da Rua do Sabão", de Carlos Palma e dividimos o palco com o bailarino Sebastian no espetáculo "Sebastian Dança".
Sérgio Coelho nos dirigiu. Tato Fischer nos deu inúmeros toques. Enquanto isso, Ivani Menezes, minha irmã, cuidava de nossa agenda de shows, mais de cem no espaço de quase dois anos.
A influência da composição erudita trazida pelo Newton, da dramaturgia trazida por Pariz, Sérgio e Tato, meu interesse por literatura e um toque especial vindo com meu parceiro Samuel Napolitano, contador de histórias, tudo levou a que expandíssemos o formato de cada número do repertório.
Estávamos sempre de olho no palco. O tamanho das músicas vinha pouco ao caso. Cada platéia que nos recebia confirmava como nossas histórias eram cativantes, e o nosso modo de contá-las, meio cantando, meio falando.
Quando resolvemos ter um produto gravado, lançamos uma fita. Vendíamos ao final dos shows. Em geral o pequeno estoque se esgotava. Naqueles anos já se ouvia falar em CDs, e o vinil, mesmo que ainda formasse o grosso das prateleiras das lojas de discos, já tinha adquirido certa aura de obsolescência. Muitas vezes, quem ouvia a fita dizia sentir falta da cena. Hoje, certamente teríamos aderido à moda do DVD.
Passados doze anos do momento em que aposentamos o projeto é possível ver que várias das questões que nos colocamos à época eram, na verdade, grandes demandas disseminadas na sociedade que foram sendo atendidas com o passar do tempo. Como, por exemplo, criar viabilidade para um trabalho assumidamente independente, que não tinha motivo nenhum para disputar vaga no "Mercadão"? Como resolver a questão dos direitos autorais num repertório todo baseado em compositores consagrados? Como ganhar visibilidade, "alcançar" novos ouvintes, novas platéias?
De lá para cá os meios de produção e divulgação se multiplicaram de tal forma que a lógica de compra e venda, nessa área da sociedade, ficou completamente subvertida. As discussões de direitos autorais têm deixado os juristas de cabelo em pé. As grandes gravadoras ao redor do mundo estão passando por uma verdadeira revolução. As idéias sobre como gravar discos, fazer filmes, editar livros, veicular informação, a própria definição de visibilidade!
A existência de uma rede mundial de dados conectando diretamente indivíduos trouxe respostas ou complicou a discussão?
Só o tempo dirá. Por enquanto, o que nos cabe é disponibilizar. O acervo que até agora esteve guardado em gavetas bem protegidas contra a ação do tempo pode sair por aí, pelo mundo, se alguém se interessar e der alguns cliques. Quem sabe, não estaremos com isso contribuindo para as novas demandas, as da próxima década, as quem nem imaginamos quais sejam, como sempre.
Irajá Menezes – Abril 2007